Nos últimos meses, vivi uma estranha coincidência (gosto de pensar que seja uma coincidência, embora saiba que nunca é apenas isso): grande parte de minhas leituras e conversas com diferentes colegas de trabalho e amigos girou em torno do tempo. Refiro-me àquele tempo classificado por Isaac Newton como absoluto, verdadeiro e matemático, que, por si mesmo e por sua própria natureza, flui de maneira igual, sem nenhuma influência externa. Esse é o mesmo tempo que, mais de dois séculos depois, foi questionado por Albert Einstein ao afirmar que ele não é absoluto, mas sim relativo à posição e à velocidade do observador.
Acontece que, no início de 2025, conheci, por intermédio de um amigo físico, a obra de Carlo Rovelli, que, segundo ele, é um dos maiores pesquisadores sobre o tempo na atualidade. Achei extremamente interessante o que me foi apresentado sobre as teorias de Rovelli e decidi aprofundar-me em sua produção. Por indicação, iniciei a leitura de A Ordem do Tempo (ROVELLI, 2018). Ao começar a obra, passei a associar, quase que imediatamente, vários de seus conceitos científicos a conceitos fundamentais da psicanálise.
Nunca fui uma entusiasta da física, mas o que me chamou a atenção na obra de Carlo Rovelli foi justamente sua articulação com a filosofia, presente ao longo de todo o livro e, principalmente, em seus capítulos finais. De forma resumida, Rovelli traz à tona discussões da física moderna ao desenvolver conceitos como a desintegração e a perda de unicidade do tempo (ROVELLI, 2018). Ele afirma que a forma como percebemos o tempo, constituído de passado, presente e futuro, é produto de um desfocamento (blurring). Se pudéssemos perceber todos os detalhes em nível microscópico, a sensação de fluxo temporal simplesmente não existiria.
A partir da mecânica quântica, o autor demonstra que existem quebras na continuidade temporal, pois, no nível quântico, nada “é”, tudo “acontece”. Ou seja, é por não experimentarmos os eventos quânticos em sua granularidade que concebemos uma ordem ao fluxo do tempo. A forma como Rovelli articula o conceito de entropia também me despertou grande interesse. A baixa entropia, que remete a uma certa noção de ordem, ocorre porque temos uma visão imperfeita do sistema. Já o seu aumento, ao possibilitar a desordem, é o que permite a emergência da percepção da “flecha do tempo” e, consequentemente, de novas possibilidades de percebê-lo.
Coincidentemente (ou nem tanto), meses depois ouvi falar de Richard Feynman, físico laureado com o prêmio Nobel por sua teoria sobre a Eletrodinâmica Quântica (FEYNMAN, 2006). Ele também é conhecido, assim como Rovelli, pela capacidade de articular de forma brilhante a física a profundas reflexões filosóficas. Obviamente, busquei saber um pouco mais sobre o que ele dizia sobre o tempo e confesso que fiquei surpresa e muito empolgada, diga-se de passagem, ao perceber semelhanças interessantes entre ele e Rovelli, principalmente no que tange às discussões sobre a seta do tempo e a probabilidade.
De tudo o que li sobre sua teoria, o que mais me chamou a atenção foi a ideia de que o tempo pode “caminhar para trás”, desconstruindo a ideia de que ele obedece a uma direção única e obrigatória. Em sua lógica, uma partícula não faz apenas um caminho de A a B; ela percorre diversos e diferentes caminhos ao mesmo tempo. É um caos, literalmente. Feynman demonstra como a natureza é muito mais estranha do que nossa observação cotidiana sugere. Depois de conhecer um pouco sobre as teorias desses físicos, só pude ter o seguinte pensamento: nunca imaginei que perceberia tanta poesia e beleza na física.
Como se não bastasse, em meio a tudo isso, eu ainda me dedicava aos estudos de duas obras fundamentais do campo psicanalítico: A Erótica do Tempo, de Jacques-Alain Miller (2000), e o livro organizado por Dominique Fingermann, intitulado Os Paradoxos da Repetição (2002). Foi impossível não articular essas leituras ao que eu estava descobrindo sobre o tempo no campo da física. Em alguns momentos, cheguei a questionar a validade das relações conceituais e teóricas que estava construindo, mas, logo depois, decidi deixar as hesitações de lado. Preferi deleitar-me com as possibilidades.
Não pude deixar de pensar no conceito de inconsciente e em como Freud, a partir dele, desconstruiu a noção de um tempo absoluto, verdadeiro, contínuo e ordenado. Miller (2000), na obra que mencionei, discorre sobre o “apego imaginário ao movimento uniforme do tempo”, embora o tempo seja, na verdade, deslocamento, exteriorizando-se em posições totalmente variáveis do móvel no espaço. Ele abre seu livro com uma questão instigante: “O que a surpresa qualifica?”, ao que responde em seguida: “Ela diz respeito a um momento não homogêneo em relação ao restante do tempo”.
Toda essa discussão da física sobre o tempo soou-me como uma formalização das questões que sustentamos na psicanálise. Para nós, psicanalistas, pensar sobre a
temporalidade é essencial para a escuta clínica. Afinal, como o sujeito se desloca no tempo e no espaço dentro da sua própria narrativa? Assim como na física de Rovelli ou de Feynman, a história do paciente não é uma linha reta, mas um emaranhado de eventos onde o passado é constantemente reescrito pelo presente.
Aqui, recordo as discussões presentes na obra organizada por Fingermann (2002). O conceito de repetição, tão caro a nós, também pode ser pensado por essas vias. Na apresentação da coletânea, a autora propõe algumas definições: a repetição pode ser vista como uma petição (re-petição), uma demanda ou reivindicação. Mas ela também indica uma retomada, um recomeçar ou recuperar, o que nos conduz à ideia de que a repetição é, fundamentalmente, movimento. Isso se torna claro na clínica: toda vez que repetimos fragmentos de nossa história, algo se modifica. Há sempre um deslocamento do sujeito nessa narrativa, o que prova que, em uma análise, a repetição não é sinônimo de paralisia. Afinal, o que buscamos é justamente promover o deslocamento do sujeito em seu espaço-tempo subjetivo.
Este mesmo livro contém uma discussão incrivelmente rica realizada por Oswaldo Giacoia Junior a respeito do tempo e da repetição em Nietzsche e Kierkegaard. No momento em que lia sobre o tempo para os físicos aqui citados, recordei-me de algumas passagens, como a afirmação de Nietzsche de que “o tempo é cíclico, um círculo que não tem começo, meio ou fim”. A esse círculo dá-se o nome de eternidade. Já em Kierkegaard, o tempo aparece na dimensão do instante, que seria a “essência e a concretude” do tempo, na medida em que permite aproximar duração, passagem e eternidade (GIACOIA JUNIOR, 2002).
Ao repetir a sua própria história, singular, o sujeito tem a possibilidade de resgatar para si sua vida, saindo de um tempo que transcorre no “automático” e reapropriando-se de si mesmo. Aqui, retomo novamente as discussões de Rovelli sobre o emaranhamento quântico: assim como as propriedades de uma partícula só podem existir em relação a outra, na psicanálise um significante (o que marca o sujeito) não possui sentido único. É preciso falar e repetir para que o que se diz de si e de sua história possa se modificar retroativamente, e aqui podemos pensar em Feynman e na ideia de que o tempo pode caminhar para trás, e, consequentemente, desloque o sujeito de uma posição que lhe gera sofrimento.
Não posso deixar de fazer uma última articulação a respeito do tempo, desta vez com um cineasta. Desde a faculdade, encantei-me com o cinema de Jean-Luc Godard. Seu estilo de roteiro causava-me estranheza. Mais tarde, ao ser “fisgada” pela
psicanálise lacaniana, não pude evitar perceber semelhanças entre a sua estética e o estilo de Lacan, a começar pelos cortes (jump cuts) nas cenas. Godard brinca com as composições em seus filmes; os recursos de edição e filmagem utilizados por ele, como o corte, a câmera em movimento, a voice over e o close-up, possibilitam uma forma inédita e sempre imprevisível de (des)organizar o espaço e o tempo do discurso fílmico.
O objetivo de Godard era fazer com que as pessoas percebessem a incompletude da representação, incentivando-as a pensar por si mesmas sobre o que poderia acontecer nas cenas. Ele não buscava a previsibilidade; seus filmes deveriam respeitar a realidade de que o tempo é fragmentado, e daí a necessidade dos cortes. Na psicanálise lacaniana, também utilizamos os cortes nas sessões para desmascarar a ilusão, inerente ao campo imaginário, de que somos movidos apenas pela consciência ou de que haveria uma supremacia de um Eu homogêneo e sem falhas.
O corte tem justamente o efeito de fazer emergir essa falha, que é onde se situa o sujeito do desejo, o inconsciente, e onde aparece o desconhecido que nos habita. No corte também emerge o silêncio que transporta o sujeito para uma dimensão além de sua fala superficial; é o que modifica a repetição, o ponto em que o sujeito tropeça, aceita sua descontinuidade no tempo e no espaço e pode deixar emergir algo novo, abrindo-se para as surpresas da vida. Uma das frases mais bonitas que li de Godard é: “O balanço entre o silêncio e a fala é o movimento da vida”.
Ao escrever este texto, recordo-me de que na infância o tempo fluía de modo diferente, mais lento e mais denso. Na infância, estamos abertos às experiências e não nos preocupamos com a passagem do tempo, ao menos não no sentido de tentar controlá-lo. Na vida adulta, desenvolvemos um tipo de horror temporis, como diz Miller (2000). Não queremos perder tempo, não queremos ser pegos de surpresa pela vida e, assim, evitamos ter que desorganizar nosso tempo, que insistimos em acreditar que flui de forma linear. Tememos a desordem! No entanto, ao tentar não perder o tempo, ao tentar congelá-lo, controlá-lo ou prevê-lo, não percebemos que acabamos sem nada para contar a respeito dele. Não resta mais espaço para o não saber, para a surpresa ou para a curiosidade.
Uma análise caminha na contramão desse apego à ilusão de um tempo eficiente. É preciso abrir mão da segurança e suportar a falta. É na quebra, no corte e no imprevisto que se descobre algo novo e que se pode, finalmente, “densificar” novamente o tempo, saboreando-o.
Referências Bibliográficas
FEYNMAN, Richard P. QED: A estranha teoria da luz e da matéria. Lisboa: Gradiva, 2006.
FINGERMANN, Dominique (Org.). Os paradoxos da repetição. São Paulo: Escuta, 2002.
MILLER, Jacques-Alain. A erótica do tempo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.
ROVELLI, Carlo. A ordem do tempo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2018