Há um encontro primordial, no tempo lógico e não cronológico, que funda a posição do sujeito na linguagem. Uma experiência que nos atravessa antes mesmo da constituição do eu, gravada como traço inesquecível. Esse primeiro laço traz a concretude do corpo: que tem cheiro de leite azedo, de noite mal dormida, de braços que sustentam e que também falham ao soltar. Às vezes, cedo demais.
Aprendemos que a função materna não opera por uma benevolência idealizada, mas pela via enigmática do seu próprio desejo. E esse desejo nunca é sem furo. “Mãe” é o nome que damos àquele Outro primordial que também desejava, sofria e oscilava em sua falta, convoca o sujeito a ocupar o lugar de seu “tudo” ou ao risco de ser reduzido a quase “nada”. É na fenda desse desejo que se inscrevem as fissuras do narcisismo e a busca por uma borda.
Julia Kristeva, em Histórias de Amor, observa que as tramas do amor adulto costumam ressoar como ecos daquilo que permaneceu não dito na relação entre mãe e filha. É essa mesma cadência que Ariana Harwicz narra com os dentes cerrados em Morra, Amor, ao expor a devastação de um afeto que devora e sufoca quando não encontra o limite do símbolo. Em consonância com essa dimensão, ao investigar o aprisionamento subjetivo em Histórias de Captura, a psicanalista Ana Cláudia Santos Meira demonstra como certos investimentos maternos, ao recusarem a castração, tornam-se mortíferos.
“Às vezes, me pergunto se é por isso que, quando amo, espero que o outro me veja inteira. Que adivinhe minha fome, meu choro, meu silêncio. Que me devolva algo daquele olhar primeiro que nunca poderia ter sido suficiente.”
Contudo, para que a captura não resulte em pura devastação, faz-se necessária a intervenção de um corte, a incidência da função separadora que retira o sujeito do gozo do Outro. É na mediação da linguagem e no trabalho com a falta que se torna possível torcer a repetição: amar deixa de ser o esforço para reativar o mito primário e passa a ser a capacidade de fazer algo com o furo. Como articula Lacan, “amar é dar o que não se tem” e consentir que o outro tampouco o terá para nos devolver. É nessa fresta que o amor se inscreve: não mais como fusão ou reiteração do sintoma, mas como invenção.
Ana Carolina Almeida de Oliveira
CRP 08/32622