Blog | Estudos em Psicanálise

Restos infantis

Desde o começo do meu trabalho como psicanalista, atendo crianças e adultos, e posso dizer que isso me possibilitou reflexões muito interessantes a respeito da escuta do sujeito do inconsciente. Como bem se sabe, o objeto da psicanálise não é a criança e nem mesmo o adulto, mas sim o sujeito do inconsciente, o qual não é pensado em tempos cronológicos, mas sim lógicos.

Entretanto, como afirma Freud, muitas vezes para o ser humano, os anos passam, mas o tempo não passa além da idade, indicando uma fixação temporal que impede o sujeito de encontrar o seu desejo. Um trecho muito interessante do livro “A criança em análise e as intervenções do analista”, de Alba Flesler, diz: “Acaso Freud não mencionou o caso de adultos que, apesar da idade, seguem em dependência real dos progenitores? Por que devemos estranhar quando eles chegam à consulta trazidos como crianças em vez de o fazerem sozinhos?”.

Bom, sabe-se que os adultos vão à análise tratar de seus “restos infantis irredutíveis” e, ao se depararem com as cenas deixadas em meu consultório pelas crianças, não é de se estranhar que a maioria deles dê pelo menos uma espiadela nos rastros lúdicos que os pequenos fazem questão de deixar no espaço.

Quando iniciei meus atendimentos, tinha receio de deixar essas marcas visíveis. O motivo, fui compreender tempos depois em minha própria análise. Com o passar dos anos, comecei a deixar a porta da sala de atendimento das crianças aberta. Achava muito interessante as diferentes reações de meus pacientes adultos ao olharem as cenas criadas pelas crianças.

Alguns se incomodam com a “bagunça” explícita, afinal, em um processo de análise, a “bagunça” é uma forma de expressão e não algo a ser evitado ou corrigido. Outros, apesar de não falarem nada, olham com olhos cheios de empolgação e vertigem, como se quisessem entrar no espaço e continuar a brincadeira. Outros ainda falam sobre um determinado brinquedo que avistaram e que também fez parte de sua infância. Não raras as vezes, sessões começaram por essas recordações.

Não tenho receio em dizer que acredito que atender crianças desde meu início na clínica me fez ter um olhar muito delicado sobre os tempos lógicos da constituição do sujeito nos meus atendimentos com os adultos. Os significantes que nos marcam e constituem a nossa imagem primeira sempre retornam em nossas falas. E, nesse contexto que narro agora, o retorno desses “restos infantis” também aparece nas expressões dos adultos ao olharem o espaço em que atendo as crianças.

Me remeto mais uma vez a Alba Flesler para destacar algo muito importante: o papel do jogo, não só na infância, mas em outros tempos da vida de um ser humano. Flesler, a partir de Freud e Lacan, irá afirmar que ao longo de toda nossa vida precisamos jogar, fazer jogo com o real, movimentar nossa imagem para que não fiquemos cristalizados em apenas uma posição. É necessário incorporar a mudança quando o real aparece, fazer algo com aquilo que nos pega de surpresa para que não sejamos corroídos por um sofrimento insuportável gerado pela fixidez de uma posição. É preciso se desgrudar dessa “primeira impressão estampada pelo olhar do Outro”, como escreve Flesler. A identificação a uma imagem primeira desenhada por nossos cuidadores primordiais precisa vacilar para que algo de autoria própria do sujeito possa aparecer.

A questão é que, muitas vezes já adultos, iniciamos um processo de análise e nos damos conta que nos deslocamos pouco ou quase nada dessa imagem, desse espaço virtual representado no espelho do Outro. Passamos anos de nossas vidas sem ousar questionarmos se somos ou queremos ser aquilo que um dia falaram de nós e, assim, ficamos impedidos de buscar conhecer o mundo para além desse espaço que foi delimitado pelo Outro e que muitas vezes acreditamos ser o único.

Assim, seja criança ou adulto, numa análise sempre estamos às voltas com esses ditos do Outro e a forma como os interpretamos. O sujeito sempre será marcado pelo conflito: “ser ou não ser aquilo que eu acho que o Outro quer que eu seja?”, ou, como escreve Flesler sobre a criança: “entre se identificar quieta e mansamente com a imagem que se espera dela ou empreender o caminho de seu desejo”.

Ora! Não é, pois, esse conflito que as crianças expressam desde muito pequenas no perder e ganhar dos jogos ou no impasse entre ser o mocinho ou o vilão nas cenas do “faz de conta”? E não seria, pois, esse mesmo conflito que nós, adultos, repetimos no resto de nossas vidas diante das escolhas que ela nos obriga a fazer?

natali santos psicanalista ponta grossa paraná

Natali Santos

Writer & Blogger

clarice lispector, clube de leitura, grupo de estudos, psicanálise, clarice lispector e a psicanalise, encontros gratuitos, literatura e psicanálise